23º Festival Estadual de Poesia - Edição 2007
1º lugar
DIÁRIOS DE ENTOMOFAGIA
Não me peças para repetir uma poesia,
que poesias são momentos,
que,
se se repetem,
já não trazem os mesmos ventos,
os mesmos ais.
Deixa, pois, a poesia alfinetada à página.
Alguma outra mente inquieta certamente cuidará de lhe despregar as asas.
Simone Eberle - Ipatinga-MG
2º lugar
MULHERES SACROSSANTAS
Lá fora a noite
Abre as coxas.
.........................
Pare estrelas reluzentes,
Pedras preciosas,
Que incandescentes
Cintilam os seios e corpos
Das prostitutas seminuas
Que erram pelos becos,
Praças e ruas
Sob o olhar da cidade...
Santas mulheres,
Mulheres sacrossantas,
Madalenas que saciam
O ímpeto carnal dos homens.
Nas capelas,
Nas catedrais
Nos santuários,
Nas casas de oração
Oram, rezam Ave Maria.
Nos lares abençoados,
Joões e Marias,
Que não são mais virgens,
Não rezam, não pecam;
Simplesmente, praticam
O crescei-vos, o multiplicai-vos.
Benditas sejam as mulheres – Evas!
Louvado seja o homem – Adão!
– Amai-vos.
Luiz Dias Vasconcelos – Sete Lagoas-MG
3º lugar
JEJUM
Ao invés do café morno sobre os tijolos
Chama-me o jardim
Num jejum quase solitário
que reúne apenas copos de leite.
Manhãs em que descalço
esqueço das saudades do corpo
E a terra amanhece resolvida
pelo vão dos dedos.
Tua ausência vive numa palavra
que ainda não sei qual é.
Morro em cada uma dessas flores
que da noite conservam orvalho
e se sustentam na sede por deus.
Dormideiras num gozo para dentro
vasculhando a tua última gota.
O teu último perdão plantado na horta.
A derradeira dose de veneno presa no talo
Sobrando no ralo desse cheiro de cedo
Este homem que cobre o chão
com um pano tatuado de tinto não sou eu.
Talvez alguém que ainda
espera existir fechado ou morto.
Feito a terra estéril coberta de sal.
Assim: na distância dos arranjos que
não acompanham o amanhecido pão.
No dilúvio preso nos olhos
E que jamais encobriu os desejos da pele,
a areia do cais do corpo.
Agasalho nas partes não tocadas
Nas flores que brotam pelo lábio sem sementes.
E ainda amanheço já no fundo do quintal
No misturado das frutas que não vingam
No mofado morangal sem sulcos.
Incurável pelo sexo que ruidosamente
fareja solidão e nós.
O bule aferventando a memória.
Derramando o silêncio, a falta.
Brasa viva no fogão lá dentro
Sereno cegando poro, terra e ninguém cá fora.
E fome. Muita fome.
:dessas que o corpo não florea.
Éder Rodrigues - Belo Horizonte-MG
4º lugar
DIAS ÁRIDOS
Tu, que dissolves sobre o horizonte desgastado
Que geme e berra o meu nome
Que respira o pó das tardes de julho
Que assopra a vegetação
Brotada das sementes
Nos campos que outrora foram esquecidos.
Tu, criança abandonada...
Não chore mais pela ferrugem dos dias.
Adriano Alcântara - Passos-MG
5º lugar
SEXO VERBAL
No princípio, era o verbo
transitivo direto
com o sujeito
paciente e determinado
a pensar.
Insatisfeito, o verbo
virou poesia, mas
m e t r i f i c a d a
p
r
p r e t o
s
o
E no sétimo dia,
descansou sobre
a árvore da sabedoria
de frutos pecaminosos
e sombra eterna
AMÉM
Jhonatan de Souza Oliveira - Coronel Fabriciano-MG
Obs. Os poemas classificados farão parte d a Série Poesia de Bolso - Volume 11 |