22º Festival Estadual de Poesia - Edição 2007
1º lugar
JARDIM DE ABRIL
Despertei o meu verso
no favo das manhãs.
E aos astros e às brisas
de mistérios viajados
perguntei:
que perfume é este
engravidado de lua
garimpando o segredo
das montanhas?
E este vento sem destinatário
vindo de abraços perdidos
suplicando aconchego
no regaço das campinas?
Onde o silêncio?
deste azul de anil
a navegar nos atalhos de meus olhos
(e seus desertos possíveis)
mendigando a plenitude?
onde?
Despertei o meu verso
no favo das manhãs...
Ligia Pôrto - Belo Horizonte - MG
2º lugar
ACORDO
Na cama, deitada, escuto o pássaro.
O canto abre o dia;
avança às cegas, tateando a alcova.
Dou-lhe meio olho de atenção, não mais.
O outro olho e meio ainda vagueia em sono:
ignora o apelo solar.
O pássaro insiste, entretanto.
Gorjeia, faceiro, com jovialidade matinal.
Descortina o início de mais uma volta no tempo.
Aviva a curiosidade sobre o que de novo o dia trará.
Abro meu outro olho e meio.
Entro em acordo com meu plumoso e inoportuno amigo:
se ele sobreviveu à noite,
também posso eu sobrevier ao dia.
E,
juntos,
talvez possamos reinventar a arte das pequenas delicadezas.
Simone Eberle - Ipatinga - MG
3º lugar
DEDOS DE PAI
Sem querer,
Interrompo o filão da inspiração
Que se extasiava em meu cérebro,
Plenipotentimente dominando
Todos os meus sentidos.
Desperto para a voz do meu filho,
Que pede ajuda para dormir.
Com um sorriso
Em seu semblante confiante,
Que pensa que tenho a corda mágica
Que laça o sono,
Entrega-me sem restrições os seus cabelos,
Para que se inicie o cafuné
Dos meus dedos de pai.
Abre-se a clareza,
Que a inspiração não se interrompeu,
Mas, antes, cresceu até o infinito,
Na candura do olhar que se fecha
Para o mergulho no mundo dos sonhos,
Conduzindo por dedos,
Que sabem estar, não escrevendo,
Mas vivendo na sensibilidade do tato,
O mais belo dos poemas.
Pena é que o mundo
Não possa compartilhar
Comigo este momento de encanto,
Pois sei que lá fora
Há crianças nas calçadas das ruas,
Entre catres de casebres miseráveis,
Em camas confortáveis de casas bem construídas,
Ou até mesmo em leitos suntuosos de palácios,
Que não podem conciliar o sono,
Pela falta de dedos de pai.
Antônio Geraldo de Carvalho - São João Del’Rei - MG
22º Festival Estadual de Poesia
4º lugar
POETA ERRANTE
Ei mãe!
Quisera ter ficado quieto em teu ventre.
Mas não pude.
A vida me quis aqui poeta errante.
Sem alpargatas, tenho os pés feridos,
por caminhar pisando em palavras e atitudes
ásperas vomitadas por espíritos pobres.
No saco de minhas tralhas
carrego um pouco de melancolia,
algumas pequenas histórias de amor
que não deram certo.
Uns poucos estilhaços de sonhos,
esperança, nostalgia.
Além de um caderno com versos
que brotam da alma.
O aboio do diabo em cada encruzilhada
escuto.
Porém, Deus também me chama
e mostra-me a grandeza de outras almas.
Convida-me a cavalgar em meu poema
pelos campos em flores.
Em tardes de primaveras.
Em noite de amores.
Em uma manhã de verão
nasci poeta.
Braz Henriques Siqueira - Leopoldina - MG
5º lugar
CONCEPÇÃO
A palavra é mulher prenha
É mulher grávida
Cheia de desejo
De novidade
A palavra vive em estado interessante
A palavra me acorda de madrugada
Engole o meu sono
Geme
Faz barulho
Tem enjôo
Contração
Sou parteira de palavras
Já fiz parto difícil
Hipertensão
Eclampse
Suor
Complicação
Tem palavra que só fica na agonia
Não nasce
Não morre
Tem palavra que é fácil
Chega inteira
Sorrindo
Assenta-se de cócoras
Tem parto natural
Gosto da palavra fácil
Da palavra que se entrega
Gosto da palavra dura
Da palavra difícil
Chorada
Gosto da palavra
A palavra é mulher grávida
Não pode enfrentar fila
Merece passar na frente
Tomar o assento, a vez, o lugar
O resto é que espere
E que fique de pé
A palavra é mulher grávida
Soberana
Em estado interessante
Não importa se anda prenha de razão
Ou se de pura emoção
A palavra é mulher grávida
É sagrada
É conceição.
Maria Inês Resende - Conselheiro Lafaiete - MG
Obs. Os poemas classificados farão parte d a Série Poesia de Bolso - Volume 11 |