9º Prêmio Nacional de Poesia – Cidade Ipatinga

Home Premiados em 2012/2013 9º Prêmio Nacional de Poesia – Cidade Ipatinga

2º lugar – Luminância
Cláudia Albers Avóglio – Pirassununga-SP

O Dividido

Esse verbo sempre
na primeira pessoa,
esse orgulho bobo,
essa mansidão escondida
sob a pele de lobo…

Essa fome constante,
e essa paz que não tens
no amor que te convém.
A fé indecisa que te impele
a seguir adiante…

Essa água benta de bilha,
que ora bebes,
ora asperges
nesse culto herege
a um deus de mentira.

Loucura do Poeta

Dobrou todos os pássaros, feito origami,
juntou aqui e ali pedaços de vento,
apagou as estrelas do corredor,
trancou a boca da noite com chave de ouro,
deu corda no tempo
e desceu os degraus da queda de dois em dois.

Foi viver como poeta
entre metáforas de vida fácil
e bêbados por profissão.

E se desventurou entre os malhos,
entre gravetos secos, quebrados,
entre cantos e cifras,
espalhado
no redemoinho de mofos teatros.

Bebeu,
secou todos os oceanos,
queimou em febre, chorou, ardeu,
no fundo dos interiores planos.
Vomitou versos vãos,
e entre estertores e escarros,
sereno,
adormeceu.

Ah, Poesia

Vem deitar nessa folha de papel.
Faze dela lençol nupcial,
aconchego de tropel
e inquietude.

Incorpora um poema,
rola com ele pela noite adentro,
deixa teu suor molhar o verbo.
Penetra a alma vazia,
explode,
que a saudade está doendo…

Vem amar na euforia
da palavra que te espera.
Baila com ela ritmada dança,
e deixa na página branca
a mancha testemunhal
da tua presença.

Solidão

Ela cantava
para ouvir a própria voz
e acenava ao nada,
em infundada espera
de alguma resposta…

Estendia a mão
para além da janela,
para que os pássaros,
pousassem nela.
Mas nenhum,
nunca pousou…

Ligava o rádio
e num diálogo absurdo
dizia a Schubert:
Volta,
estou te esperando!…

Colhia gerânios com alegria,
despetalava-os:
– Bem-me-quer, mal-me-quer…
e se enfeitava para o amado
(que nunca viria),
como toda mulher…

A Fera e a Poeta

Moram dentro de mim
duas lobas famintas
de apetites distintos.
Uma é a fera que se alimenta
do ódio, da hipocrisia
e das verdades que omito.
A outra é mansa,
sonha e sorve a poesia
que lhe dou aos goles.

À besta, basta o vento
soprado dos foles
para acender sua ira.
Já a mansa
tem a inapetência
dos poetas em transe
e a sede da criança
que brinca distraída.

Iludo-as até que se cansem
e encho suas talhas
de metáforas e mentiras.

Lista de premiados do 9° Prêmio Nacional de Poesia – Cidade Ipatinga
Lista de Premiados de 2011/2012